Sempre que chegamos próximo de época de graduação, as quais geralmente no jiu jitsu acontecem no meio e nos finais de ano, ouço historias absurdas de graduação. Querendo ou não, é comum pegarmos os alunos analisando as graduações de alunos de outras academias. Nesse ano (Novembro/2013) isso ainda coincidiu com uma matéria da Revista Tatame, a qual estampa na capa uma matéria sobre a Venda de Faixas no Jiu Jitsu.

Comecemos pelo começo!

capatatameTodo órgão, todo esporte, todo comércio, possui sua Federação, Sindicato, Junta, ou seja, alguma entidade que dite as regras que devem ser seguidas. Se você está lendo este artigo e como eu, treina jiu jitsu, então deve saber que a entidade de maior expressão no cenário do jiu jitsu, a qual dita às regras do nosso esporte é a International Brazilian Jiu Jitsu Federation. A nível nacional é a Confederação Brasileira de Jiu Jitsu e a nível Estadual seria a Federação Paulista de Jiu Jitsu.

No site da CBJJ (www.cbjj.com.br) já podemos saber tudo sobre a graduação do jiu jitsu. Basta que se fizesse uma boa leitura e as dúvidas seriam sanadas. Infelizmente essa não é a cultura que vemos!

Existem algumas divergências em Estados, tal como o Estado de Minas Gerais onde o sistema de faixas diverge um pouco do utilizado pela CBJJ, mas em suma, no Estado de São Paulo o sistema é o mesmo!

Lembro uma vez em que um aluno me disse que tal criança tinha sido graduada com a faixa verde aos 10 anos e que outra iria pra faixa roxa aos 15 anos devido ao fato do professor achar que os mesmos estavam “voando baixo”. Concordo. Não estamos aqui pra julgar o nível do jiu jitsu de cada um, mas sim pra seguir as regras e pelas regras da CBJJ ninguém pode receber a faixa verde antes dos 13 anos e nem a faixa roxa antes do 16 anos.

Lembro-me de um caso que um aluno recebeu a faixa roxa das minhas mãos e mudou-se pra outra academia e passado um tempo recebeu dois graus na faixa e no outro semestre já mudou para faixa marrom. Isso tudo dentro de um tempo de menos de um ano, sendo que o previsto pela CBJJ seria a permanência de pelo menos um ano e meio na faixa roxa.

Casos assim são corriqueiros e comuns e na verdade não foram os que a revista Tatame abordou. O que estava em pauta lá seria a moeda de troca na qual a graduação de jiu jitsu se transformou. Se paga favores com graduação, cativam-se alunos com graduação e valoriza-se a vitória de atletas de MMA com graduação. Ou seja, infelizmente a graduação do jiu jitsu virou uma moeda de troca e não um reconhecimento pelo tempo de treino e suor derramado dentro do kimono. Sim, dentro do kimono, pois acho indispensável o uso da vestimenta. Como pode existir um atleta que seja graduado no jiu jitsu se não treina, compete ou veste o kimono? Por mais incrível que pareça, casos assim existem e infelizmente não são raros.

Outra coisa que me lembro é de um atleta receber uma faixa de um professor, após uma luta de MMA em que nocauteou o adversário. O professor feliz da vida alegava que estava dando a faixa pro aluno, pois mesmo estando treinando apenas técnicas de MMA, conseguiu se defender durante a luta, saiu de diversas tentativas de finalizações perigosas e ainda foi lá e nocauteou. Pensei comigo, então se um leigo aparecer na minha academia e fizer um rola duro com um faixa roxa e esse faixa roxa não conseguir finalizá-lo, devo dar então a faixa roxa pra ele? Se ele der um soco na cara do faixa roxa então, que faixa devo lhe dar? A preta?

E os princípios da arte marcial? E as tradições? E o respeito? E as fugas de quadril, caminhar do samurai, técnicas de entrada e principalmente Defesa Pessoal do jiu jitsu? Foi esquecido? Desde quando uma luta é o suficiente para se avaliar um aluno?

Por isso que vejo mais e mais alunos que às vezes vão me visitar na academia e não sabem cumprimentar o tatame, ordem de hierarquia, historia do jiu jitsu e nem o significado da palavra “oss”. Infelizmente muitos olham a foto do mestre Hélio Gracie ou do Mestre Carlos Gracie e fazem uma piada: “- Porque você colocou a foto do tiozinho do pastel na parede?”.

Estaria o jiu jitsu se tornando uma arte apenas de atletas de MMA ou de competidores?

Cito sempre na academia o exemplo clássico do advogado que ao ser formar na faculdade ainda não é advogado. Ele só recebe esse titulo ao ser reconhecido pela OAB. Assim também deveria ser no jiu jitsu. Seriedade.

Outro exemplo é comparar o jiu jitsu ao médico: Você deixaria um profissional de saúde, que tem anos de experiência, MAS QUE NÃO É MÉDICO, cuidar de seu filho? Realizar uma cirurgia nele? Mas se ele tem registro e reconhecimento no Conselho Regional de Medicina que o autoriza a fazer isso, você deixaria?

Esse exemplo mostra a importância de ser registrado e reconhecido. Agora imagina esse suposto médico, sem registro, ensinando o que sabe e dizendo que em três ou quatro anos seus alunos estão aptos a serem chamados de médico? Cobrando caro de seus alunos e ensinando a no máximo dar uma injeção… Em poucos anos, com certeza, a medicina iria se acabar e teríamos apenas açougueiros cuidando de nossos filhos. E olha que embora tenhamos pouco acesso aos médicos bons, acredito que no Brasil devido à rigidez do CRM, temos excelentes profissionais de saúde… Mas isso é outra história!

Mas existem também alunos que preferem “antecipar” a sua graduação, achando que vencer um campeonato, vencer os mais graduados, sua pujança física ou sua experiência de vida já são suficientes para ser graduado, dando a entender ao professor que já está pronto ou até mesmo oferecendo descaradamente dinheiro para ser graduado.

Os assuntos abordados são extremamente delicados, pois o aluno que recebeu a graduação, ao ouvir o relato acima, acredita que sua conquista está sendo menosprezada, quando na verdade a culpa de todo o ocorrido seria a de seu professor. “Professor” também é uma palavra que se fosse usada ao pé da letra, seria tirada de circulação de vários tatames de jiu jitsu. Segundo a CBJJ, nenhuma pessoa pode receber a faixa preta antes do 19 anos e ao recebê-la, a tarja da ponta, aquela que comumente vemos de cor vermelha, na verdade deveria ser branca. E isso não é só você, eu ou aquele, TODO faixa preta deveria ser graduado a faixa preta ponta branca. E isso não é desmerecedor! Significa que o atleta atingiu referida graduação, porém é um competidor ou auxiliar e não professor. Serve também para lembrá-lo que ele veio da faixa branca e nunca deve esquecer a humildade e vontade de aprender que um faixa branca tem.

Sabe aquelas duas bordinhas brancas que a faixa preta tem? Nas extremidades da tarja vermelha? Seria a tarja branca inicial que ficou por baixo da tarja vermelha. Ou seja, o faixa preta recebe a faixa preta ponta branca e após receber a tarja vermelha, ele costura a tarja por cima da outra. Mas quando eu receberia a tarja vermelha?

Só está apto a receber a tarja vermelha e poder ministrar aulas o atleta que registrasse sua faixa na CBJJ ou FPJJ, recebendo da entidade o título de faixa preta ponta vermelha. Mas me responda: Você já viu vários faixas pretas não é? E quantos tinham a tarja da faixa de cor branca? Poucos ou nenhum não é? Acha-se que o simples fato de chegar à faixa preta já lhe dá o direito de ensinar!

Na carteira de afiliado da FPJJ, a carteira de professor vem com uma faixa preta com a ponta vermelha e a carteira de faixa preta vem com uma tarja de ponta branca. E ainda: faixa preta só tem direito a receber graus oficialmente depois que recebe a tarja vermelha da sua Federação!

Esses dias um aluno me perguntou por que ele ainda estava na faixa azul? Um faixa azul bom, técnico, humilde e disciplinado e que treina muito. Respondi que embora ele fosse técnico e soubesse bastante, ele precisava esperar a carência mínima exigida pela CBJJ, que é dois anos na faixa azul e ele após responder com um sincero “OSS” me disse que um amigo dele, que treina em outra academia e que recebeu a azul na mesma época que ele, havia pegado a faixa marrom recentemente. Refleti e pensei: se meu aluno ainda espera a carência de dois anos pra mudar de faixa, como o outro pode estar na faixa marrom? Duas faixas em dois anos? Será que esse aluno tem registro na Federação? Será que o professor dele tem? Será que ele conhece exercícios de solo, amortecimentos, levantadas, defesa pessoal, teoria e prática ou sabe apenas lutar?

Mesmo que eu quisesse adiantar tanto assim meus alunos, isso seria impossível, pois a EBJJ é registrada e todos os professores lá também são. Se eu encaminhar para a FPJJ a ficha de um aluno que não cumpriu devidamente o tempo de carência de cada faixa, de imediato recebo um puxão de orelhas. Se eu encaminhar a ficha de uma criança com uma faixa de cor fora da carência, tomo um puxão de orelhas. Se eu inventar de graduar um aluno menor de 18 anos com a faixa marrom: puxão de orelhas!

Mas, se o professor do aluno A ou B não está registrado, quem vai puxar a orelha dele? Quem vai dizer o certo ou errado se perante a FPJJ o professor na verdade nem é professor?

Devemos parar de achar que o jiu jitsu nos deve algum retorno. Nós que devemos dar mais valor ao jiu jitsu! Devemos para de achar que merecemos faixa antes da hora ou que o aluno merece. Se amamos mesmo a arte que treinamos, devemos lutar pela sua excelência e querer cada vez mais o profissionalismo e menos charlatanismo.

Nenhuma criança pode ser faixa cinza antes dos 4 aninhos, Nenhuma criança pode ser faixa amarela antes do 7 aninhos, Nenhuma criança pode ser faixa laranja antes dos 10 aninhos, Nenhum adolescente pode ser faixa verde antes dos 13 anos. Ninguém pode ser faixa azul antes dos 16 anos. Ninguém pode ser faixa marrom antes dos 18 anos e ninguém pode ser graduado faixa preta antes dos 19 anos. Se você conhece alguém que foi, informe o site da CBJJ para que ele leia e mesmo que o professor dele diga que ele está muito bom e por isso antecipou o tempo de carência, que ele saiba que a federação não vai acreditar nessa historia.

Curiosidade: ninguém pode ser faixa vermelha e preta (coral) antes dos 50 anos. Ninguém pode ser faixa vermelha e branca antes dos 57 anos e Ninguém pode receber a faixa vermelha 9º grau antes dos 67 anos.

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Lembro-me de uma conversa com o Mestre Otávio de Almeida Jr. Presidente da FPJJ enquanto almoçávamos e ele disse:

– Em breve será aprovada uma lei que torna o professor de Artes Marciais uma profissão e aí, quem não tiver registro como professor será enquadrado no crime de exercício ilegal da profissão. Aí o professor terá que ter conhecimento técnico, didático e psicológico para ensinar e ainda autorização da Federação para poder das aulas e  não apenas achar que a faixa lhe dá esse direito!

Sonho com esse dia!

Oss

Alessandro Capodeferro

CategoryArtigos
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